quinta-feira, 25 de abril de 2024

MISS MARANHÃO GAY SERÁ REALIZADO NESTE SÁBADO EM SÃO LUÍS

 A arco-íris produções realiza o evento que escolherá a representante maranhense no Miss Brasil Gay 2024

 

Top 3 do Miss Maranhão Gay 2016.

No dia 27 de abril, às 21h, no Clube do BASA, acontecerá o concurso que elegerá a @miss.maranhao.gay.oficial 2024.

Os ingressos estão à venda na Bilheteria Digital. No dia do evento estarão disponíveis também na bilheteria do local a partir das 19h. A festa será transmitida para todo Brasil pelo seu canal no youtube http://www.youtube.com/@miss.maranhao.gay.oficial

Na programação, além do desfile haverá várias apresentações de transformistas performáticos vindo de várias partes do Brasil.

Surama Wilker e Bia Maranhão, 1997.

Participação especial da atual Miss Brasil Gay, Muriel Lorensoni, eleita em 2023, na cidade de Juiz de Fora. Um transformista paranaense, doutor em Estudos de Cultura Contemporânea pela Universidade Federal de Mato Grosso, que tem viajado o Brasil inteiro usando esse lugar de fala para levar uma mensagem transformadora e estimulante à comunidade LGBTQIAPN+ historicamente excluída e segregada no Brasil.

Muriel Lorensoni,  Miss Brasil Gay 2023.

Presentes também a maranhense Ariely Duailibe, atual miss Brasil Trans, eleita em novembro de 2023, na cidade de São Paulo representando o Maranhão e Monique Skaranze atual Miss Brasil Gay Versão Bahia, cearense que também venceu a edição nacional representando o Maranhão em Salvador, em novembro de 2023.

Destaque ainda para os artistas performáticos do eixo Rio/São Paulo, Alexandre Hakan, Marcinha do Corinto e Lizandra Brunelli e dos artistas locais Bia Maranhão, Surama Wilker, Suzane D’Castro, Luana Phaifer, Lunna Mitchel, Valeska Furtado, Yanna Biankini e Dalma Calado.

Alexandre Hakan

Abrilhanta a festa ainda, a pernambucana Antonia Gutierez, ex Miss Brasil Gay de 2019 e André Pavan, diretor artístico e coordenador nacional do Miss Brasil Gay Oficial.

A festa tem o patrocínio da Prefeitura Municipal do São Luís, por meio da SECULT e o apoio cultural do vereador Astro de Ogum, parlamentar de São Luís que há mais de 20 anos apoia e incentiva este evento, que é uma das maiores festas da comunidade LGBTQIAPN+ do estado.

O Miss Maranhão Gay, concurso realizado há 44 anos, se transformou em um dos maiores eventos de beleza do Maranhão. Ao longo desses anos resistiu e enfrentou muitas dificuldades e truculências. Suas primeiras edições, na época da ditadura militar, foram feitas em sítios particulares, na região da ponta d’areia, somente para convidados. Após a redemocratização, em 1985, a festa ganhou feições públicas, porém realizada nos guetos. Somente em 2014, há exatos 10 anos, quando passou a ser feita na Panetti Bufett, a festa chega às melhores casas de eventos da cidade, se tornando um dos maiores espetáculos locais de arte e beleza transformista.

 

Coordenação: Itamilson Lima e Wallen de Sousa

Organização: Itamilson Lima, Enoque Silva, Rivanio Almeida e Bia Maranhão

domingo, 31 de março de 2024

AS PÁSCOAS MAIS FELIZES NÃO TINHAM OVOS DE CHOCOLATE

 

Padre Diniz na procissão de Páscoa da Comunidade Católica de Santa Teresa do Paruá.

O período Pascal cada dia mais está sendo imortalizado pelos comerciais ovos de  chocolate, ovos de colher, caixas de bombons (cada vez mais vazias) e barras (cada vez menores)... e dá-lhe Garoto, Lacta, Nestlé, Cacau Show, Ferrero Rocher, Kopenhagen... têm sido Páscoas gostosas, mas vazias de significados. Têm valido mais os valores monetário dos ovos que os valores de Cristo.


Eu não sou tão velho assim... (pelo menos ainda), mas, estou caminhando pra lá e ficando sempre mais reflexivo quanto ao ser humano que venho me tornando. E, por esta razão, quando chega estes períodos eu me questiono o motivo de tanta gente tá vivendo distanciamento do sentido real dos designos Divinos e pouca gente, assim como eu seguir sempre buscando o lado do amor, do bem, da solidariedade, da compaixão, da partilha, dos necessitados, dos excluídos, da união... do sentido de renascimento que a vida de Cristo tenta nos ensinar ainda nos dias de hoje?

Bom, apesar de ter nascido em uma família (Assembleia de Deus) eu estudei em uma escola que foi fundada por um Padre Camboniano, o sempre admirado Pe. Diniz, por quem teremos uma eterna gratidão, que teve a sua frente Professora Eliane, Professor Aécio e que mais tarde fora dirigida pelos Irmãos Lassalistas. Embora muito ligada a igreja católica o Colégio Santa Teresa nunca foi excludente, muito, mas, muuuuuuito pelo contrário mesmo. Desde sua  fundação e construção sempre teve a participação e contribuição de todos da comunidade, independente da religião que seguisse. Isso por si só já é um grande ensino de união.

Nas aulas tínhamos todas as atividades muito ecléticas e com a participação de todos. Ali tudo era baseado nos verdadeiros sentidos cristãos. No período Pascal, por exemplo, tínhamos sempre as leituras diárias das passagens bíblicas que eram importantes para entendimento da vida de Cristos e as razões que o levaram a viver e dar sua vida por nós. E na Semana  tínhamos as dramatizações e a celebração da Santa Ceia, onde cada um ficava responsável por levar alguma coisa para preparar a sala para nossa cerimônia do lava-pés. Bacia, toalha de mesa, toalha para secar pés, pães, peixes fritos ou assados, suco de uva (ou vinho, dependendo da série), cada um escolhia o que poderia levar, se pudesse levar. Era lindo de ver e, principalmente, de viver tudo aquilo. Era como se Jesus estivesse presente... e os professores eram os intermediários desse processo de visualização e sentimento do Divino (Salve Mariazinha, Diquinha, Eunice, Brígida, Izabel, Carlos, Ir. Odyllo, Ir. Dionísio, Ir. Renato e tantos outros... e os cânticos? Nossa! Estes foram a trilha sonora das nossas vidas e deixavam tudo mais emocionante:

"E quando amanhecer
O dia eterno, a plena visão,
Ressurgiremos por crer
Nesta Vida escondida no pão"
(Antes da Morte)

"Deus está aqui
Tão certo como o ar que eu respiro
Tão certo como o amanhã que se levantará
Tão certo como eu te falo e podes me ouvir"
(Deus está aqui)

"O senhor é santo
Ele esta aqui
O senhor é santo
Eu posso sentir
Quando olhei o sol brilhar, vi que o senhor é santo
Vendo as estrelas do céu, vi que o senhor é santo
Na imensidão do mar, vi que o senhor é santo
No orvalho da manhã, vi que o senhor é santo"
(O Senhor é Santo)

"Também sou Teu povo, Senhor
E estou nessa estrada
Cada dia mais perto da terra esperada!
Também sou Teu povo, Senhor
E estou nessa estrada"
(O povo de Deus)

"Me chamaste para caminhar na vida contigo
Decidi para sempre seguir-Te, não voltar atrás
Me puseste uma brasa no peito e uma flecha na alma
É difícil, agora, viver sem lembrar-me de Ti"
(Te amarei Senhor)

"E Seu nome era Jesus de Nazaré
Sua fama se espalhou e todos vinham ver
O fenômeno do Jovem Pregador
Que tinha tanto amor!"
(Um Certo Galileu)

Fachada da minha casa, de onde minha família acompanhava a passagem das procissões de Páscoa.


Por falar em música, uma coisa que eu sempre achei o ápice de tudo era a procissão que a igreja católica fazia da entrada da cidade até a frente do Salão Paroquial no Centro Comunitário e depois, com a construção da igreja de Santa Terezinha do Menino Jesus,  até a frente da mesma. A frente das pessoas vinham uns fiéis representando Cristo carregando a Cruz recebendo chicotada dos guardas romanos e quanto Maria acompanhava a paixão de Seu Filho. Atrás deles vinham o padre e as pessoas caminhando devagar, lendo trechos da Bíblia e cantando os cânticos mais lindos e emocionantes que já vi na vida. Para ajudar no alcance da escuta das leituras e acompanharem os cânticos o padre e as pessoas que puxam os textos e a cantoria usam microfones sem fios que eram replicados em radios-gravadores sintonizados na mesma frequência dos microfones.  Nem preciso fechar os olhos... de olhos abertos consigo visualizar perfeitamente o Ir. Dionísio Bruxel segurando um desses rádios-gravadores na altura de seu ombro (ele era um dos mais altas das cidade). Eu não acompanhava a procissão, mas todas as vezes ficava sentado no muro do terraço lá de casa com toda atenção e respeito para ver aquela movimentação que simbolizava pra mim nosso amor ao Pai Celestial.

Esse período sempre foi sinônimo de muita fartura e união  embora nunca tenhamos tido nenhuma graaaande desavença com nossos conterrâneos (salvo as contendas de crianças). Contudo, parece que a chegada da Semana Santa esse sentimento era ainda mais forte e mais lindo - sempre gostei mais que do Natal - pois era o período que a cidade ficava ainda mais cheias dos nossos irmãos  e amigos que moravam fora da nossa Santa Teresa do Paruá. Ali perto de casa iam de São Luís sempre algum dos meus irmãos, D. Fracisquinha e Santídio (mãe e sobrinho do Soares, que moravam em Belém), D. Maria e seu filho Antônio (de Governador Acher, mae e irmão do Osmar Dentista), a Pretinha/Eletilce de D. Adelina (que na época, me parece, morava em Bacabal), Ana do Seu Sebastião Falafina com sua prole (eles moram ainda em Brasília). Na cidade se juntavam à Netinha Soares, Nete do Osmar, Francisca Sales, Maria do Newton, Delina, Lauriza, algumas filhas de Maria do Santinho e era uma produção enorme de canjica, minguau, pamonhas e bolos de milho verde, de tapioca fina, tapioca em caroço e macaxeira... cada uma faziam os seus e depois trocavam pedaços para provarem uma das outras. Era um festival gastronômico e de partilha incrivelmente delicioso de vivenciar. Era muito pouco ver e é pouco ouvir ou ler sobre... bom mesmo foi viver tudo isso de dentro do que se passava. E nós, então crianças, vivíamos em cambada atentando (leia-se brincando e  brigando) juntos, mas nunca nos largávamos.

Maria e Eletilce na produção se bolos da Semana Santa.


Naquela época a semana toda era Santa, digo... feriado...rsrsrs... então dava tempo de vivermos tudo isso e ainda tínhamos tempo de irmos ao terreno da família do Soares na estrada do Centro do Guilherme banhar de açude, ir a nossa chácara na Cabeça da Égua (bairro) assar castanhas e ainda visitar Dona Deuzuíta e Seu Joaquim no Engenho, depois do bairro do Mutirão, onde ela moravam com seus filhos e produziam cana-de-açucar e cachaça da terra (lá tinha um açude maravilhoso... água pra lá de gelada).

Engana-se quem pensa que estou falando de comidas pascais... estou falando das relações cristãs, das relações fraternas, das relações humanas,  pois, sendo cristãos os ensinamentos de Jesus Cristos nunca passou por qualquer sentimento ou prática de exclusão por qualquer que fosse os motivos, nem mesmo por crenças distintas - Isso aprendi graças aos ensinamentos da Palavra Divina passadas por meus professores e pela práticado meu pai Raimundo Juruca. Assim eu sigo tentando viver... e trago essa prática desse período, de onde vêm minhas maiores lembranças, aliás, mais que isso!!! Minhas maiores referências de acolhimento e doação para ajudar o próximo. E eu tenho muito orgulho dessa minha origem.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

LOUCAS MEMÓRIAS

 Toda cidade tem seus moradores que entram para a história como personalidades ilustres, que ficam na memória das pessoas por anos a fio.  Em Santa Teresa do Paruá, minha terrinha Natal (a 416,1 km de São Luís via BR315 e a 251,7 km via ferry-bout) não é diferente. Tem muita gente querida por ter contribuido significativamente com a construção socioeconômica da cidade, mas há ainda os que contribuíram, mesmo que involuntariamente, com a construção de uma história à parte ligada, digamos, mais ao imaginário popular e que não merecem ser esquecidas.

Vista aérea de Santa Teresa do Paruá 

Muito bom ter nascido e ter podido crescer na minha cidade em um período importante para sua consolidação como uma comunidade unida, com necessidades, sonhos e lutas comuns.  E ao longo do tempo de ter acompanhado seu crescimento e emancipação de fato. Saindo da condição de município de Turiaçu para ser município de Santa Luzia do Paruá e, por fim, virá cidade sede. Pena que com nome de Presidente Médici, um dos piores ditadores da história brasileira. Mas, enfim... voltemos ao foco.

Bom, são muitos os nomes de pessoas que ajudaram a por cada tijolinho de nossa história. Muitos ainda estão vivos acompanhando a história continuar a ser escrita. Alguns já partiram desse mundo e deixaram suas contribuições e exemplos de trabalho, honestidade e amizade. Esses ficam na história documentada em pesquisas escolares, em nomes de prédios públicos, podem virar nomes de ruas, avenidas... e seguirão sendo história passada de geração em geração.

Contudo, em toda e qualquer localidade sempre existem alguns que suas histórias vão sendo passada de boca a boca como sendo personagens de contos e causos. Esses passaram suas vidas às margens, sob os estigmas preconceituosos de loucos, estranhos... mas, alguns era apenas diferentes e excêntricos ou exóticos. Eram assim considerados por terem alguma deficiência mental, intelectual ou física e tão tinham os devidos tratamentos necessários e aos quais temos conhecimento com maior facilidade - ou com menor dificuldade - atualmente. Santa Teresa, apesar de, na época que eu morava por la - década de 1980 e 1990 - ser um lugar relativamente pequeno teve um razoável número de pessoas que tinham características mentais diferenciadas dos "ditos normais" (eu até hoje sigo querendo saber o que é normal...)

Quando eu era pequeno meu avô paterno, Seu João Batista Cantanhede - João Juruca, daí o apelido de meu pai - morava, se não olhei errado no Google Maps, na Rua São Benedito. Vizinho a ele, quase em frente a sua casa, morava um garoto  fogoió com idade semelhante à minha. ARMINDO cresceu andando a cidade e tinha alguns comportamentos característicos recorrentes como balançar os braços em círculos, saltar sorrindo e batendo as palmas das mãos... Ele, volta e meia, soltava uns palavrões cabeludos - kkkkkkkk - para desespero dos adultos. Em compensação sabia de cor e salteado o roteiro de uma missa. Muitas vezes ele ia lá pra casa e ficava na farmácia conversando com a gente, que sempre pedia que "rezasse" a missa. Ele fazia sem reclamar. Eu achava incrível sua capacidade de memorização.

Outro que sempre ia la em casa, normalmente aos fins de tarde, e ficava olhando papai tirando a barba - ele fazia isso sentado em um tamborete na calçada da farmácia - era um rapaz conhecido como TI CACHORRÃO. Sempre com uma Correia na mão, andava a cidade girando sua Correia. Apesar de estar sempre "armado" com sua peça ele era uma pessoa pacífica. Cumprimentando a todos com seu conhecido "Ei, ti!".

Recordo ainda de uma mulher magra,  alta, que tinha um filha - não recordo o nome - e estava quase sempre estava alcoolizada. Seu nome era Maria Joana e tinha o apelido de MERENGUE. Era comum ela andando a cidade já embriagada, cantando, dançando, com uma garrafa em uma das mãos enquanto com a outra arrastava a filha. Não recordo a última vez que a vi e qual seu fim e nem de sua filha.

Tenho também uma breve recordação de uma espécie de "VELHO DO SACO". E, apesar de conseguir visualizá-lo mentalmente, não recordo seu nome. O fato é que ele andava vestido de roupas rasgadas e sujas, com um saco pendurado em um pedaço de pau aos quais ele arregava nos ombros. E, como criança não é cria de gente, os meninos gritavam um apelido a ele, que corria com raiva atrás dos pestinhas.

Não sei hoje, entretanto quem conheceu o centro Comunitário da Comunidade Católica de Santa Teresa conheceu e admirou as pinturas da capela (não recordo qual) e do refeitório (a Santa Ceia do Senhor). Ambas feitas com muita perfeição e afinco por um artista chamado ADOLFO. Recordo ligeiramente dele, um homem negro, tinha uma conversa articulada, fundamentada e bom vocabulário. Contudo era visível que não gozava de boas faculdades mentais. Todos falavam que ele ficou daquele jeito de tanto estudar... isso passou a ser argumentação para alguns preguiçosos para estas atividade - eu mesmo, quando adolescente, argumentei várias vezes. Não adiantava... tinha que estudar, ainda bem.

Eu sempre tive uma relativa boa convivência com todos estas pessoas. Pois, eram todos calmos. Então eu não tinha medo de quase nenhum deles, pois não imprimiam nenhum tipo de agressividade. Contudo... meu Deus!!! Teve uma senhora que me apavorava, a MULHER DO ÍNDIO. Uma senhora baixinha, que morava lá pras bandas do bairro das Três Barracas. Quando estava bem nunca a viamos circulando pela cidade. Ao passo que todas as vezes que tinha crises saía andando apressadamente pela cidade e, como que lei, sempre tinha que passar lá em casa, pois sempre ia a procura do meu pai. Quando ele estava em casa, tudo bem. Mas, quando eu estava sozinho tomando conta da farmácia ficava sempre apreensivo com medo dela aparecer. E quando aconteceia dela despontar na rua e alguém me avisasse, eu baixava as portas da drogaria e corria para fechar porta e janela da casa também. Certa vez ela entrou procurando papai antes que eu chegasse a tempo de fechar.  Na volta entrou no quarto dos meninos, que antecedia a porta do ambulatório, e deu de cara com um desenho gigante do Rambo segurando uma metralhadora. Ela saiu correndo e gritando pedindo para o "soldado" não atirar nela. Eu sempre rir, de nervoso, dessa história. A Mulher do Índio tinha uma fixação pela figura do meu pai,  que sempre lhe atendia bem. Certa vez a mãe dos meus sobrinhos Lucas e Teresa, que é jornalista, foi fazer uma matéria na clínica que acolhia pessoas em crise e a conheceu. Quando conversaram e descobriram o ponto em comum, seu Raimundo Juruca, a interna cismou que a então repórter, Cristiane Moraes, tinha que levá-la dali. Foi sufoco pra equipe de reportagem sair da clínica.

Uma outra pessoa que frequentava muito nossa casa era chamado de MANÉ PRETO. Conheci esse ainda pequeno.  Menino negro e gordinho de nome Antônio que foi criado pelo Seu Sabino, um curandeiro que foi muito amigo do meu pai. Moravam nas primeiras casas do bairro Cabeça da Égua, no sentido de que ia para o outeiro. Toda vez que eles vinham pra as ruas da cidade, encostavam lá em casa. Quando o velho Sabino faleceu, papai ficou responsável, por comprar uma casa para que o Antônio morasse mais próximo a cidade, já que não tinha nenhum outro parente.

Uma pessoa, ou melhor, uma família que não era de lá, porém sempre passava pequenas temporadas na cidade era uma  dona de um pequeno circo. A família era formada pela Mãe, a filha e o Pai, conhecido como MENINO DE OURO. Recordo bem que eles eram negros e tinham os cabelos pintados de dourados. Eles não eram, até que se prove o contrário, pessoas com algum tipo de deficiência intelectual, mas tinham uma vida nômande  muito diferente da vidas de nós que tínhamos residência fixa. Isso despertava curiosidades.

Nesse contexto, de não ser deficiente de cognição, mas de serem pessoas autênticas, marcantes e, por isso, foram do comum tivemos outros amigos. Esse é o caso da dupla VERDIANO e BRABO. Eles eram dois amigos e vizinhos que ganhavam a vida sendo coveiros e fazendo bicos nas casas da cidade como cavando ou lavando poços, capinando ou limpando quintais. Outra prática que os dois tinham em comum era o gosto pela pinga. Não difícil eles passavam pelas ruas após algum trabalho e após tomarem suas merecidas doses de alguma branquinha.

Morando em uma casa quase de fundo com nosso quintal tinha a MARIA GARIMPEIRA. Uma mulher que sempre achei interessante. Trabalhou  garimpos durante uma parte de sua vida e fixou residência em Santa Teresa. Não tinha muitas posses, só que isso não era desculpa para que não andasse sempre arrumada, perfumada, cheia de Colares, pulseiras, anéis, maquiada, cabelos pintados e penteados. Sua vaidade era muito admirável.

Outra mulher muito vaidosa e curiosa era DONA FRANCISCA, esposa do Seu Cabeça Branca, um comerciante que tinha na Praça das Quatro Bocas - acho que depois deles quem morou no endereço foi o Mauro Jacu. Dona Francisca tinha um cachorro chamado Benjamin com o qual passeava pela cidade e tinha muito carinho. Ela tinha como dote artístico a dança. Vez por outra coloca a vitrola na calçada de casa com músicas altas e se punha a dançar diante de uma plateia que se formava curiosa.

Joyce Morais

A outra mulher - esta trans -  marcante foi minha querida amiga JOYCE, a pioneira da cidade. Conheci ela ainda pequena, antes de se assumir esta personalidade, com nome e pronomes femininos. Desde criança andava sempre na ponta do pé, como que estivesse sempre sobre um salto imaginário. Adorava falar, sorrir e dançar!!! Sempre tinha uma performance da Madonna para nos apresentar - com uma certa timidez - na sala lá de casa para mim e minha irmã Rogenia, por quem ele sempre teve um carinho especial. Os anos passaram, ela externou ainda mais sua personalidade feminina e sempre foi muito querida na cidade, apesar dos preconceituosos e das más línguas que sempre existiram e existirão. Infelizmente Joelma sofreu um AVC e depois de complicações para quem tá tinha baixa imunidade veio a falecer já nos anos 2000 e pouco.

Não bastando estas personagens ilustres da cidade, esporadicamente apareciam umas figuras, digamos curiosas. Quando eu já era adolescente apareceu umas duas ou três vezes um casal de cegos muito instigante. Vi na casa da minha vizinha, Maria - esposa do Neuton  Araújo - uma muvuca de gente e, curioso que soooou, fui e conferi o que se tratava. Um casal de cegos com uma filha pequena e toda falante. Isso não era o atrativo e curioso da história... o cara, o marido e pai reconhecia células de dinheiro apenas pelo cheiro. E dá-lhe células diferentes para ele cheirar e dizer o seu valor..... e todos caindo nessa!!! Hoje eu acredito que na verdade ele não era cego total. Tinha uma baixa visão que lhe permitia enxergar a cédula a distância da altura de seu nariz. E nós totalmente admirados com as cenas. Kkkkkkkkk

Por fim recordo do Seu Margarida que, não sei onde morava exatamente, e que sempre vinha visitar seu filho Riba, que faleceu dias atrás, e fora criado pelo Antônio  Carpinteiro e Dona Chica, meus vizinhos, maravilhosos. Seu Margarida tinha um jeito de andar e falar como os caipiras matutos encenados em tantos filmes ou programas de comédias. O que mais era marcante nas suas visitas era seu gosto por cantar. Se ele cantava várias musicas eu não tenho recordação. Todavia ele sempre cantava uma música em específico, e a qual sempre o Seu Santinho - vizinho de frente - se divertia sorrindo e mandando ele cantar novamente. A letra da música dizia:

"Chorei, porque
Fiquei sem meu amor
O gavião malvado
Bateu asa foi com ela,
E me deixou

Quem tiver mulher bonita
Esconda do gavião
Ele tem unha comprida
Deixa os marido na mão
Mas viva quem é solteiro!
Não tem amor nem paixão
Mas vocês que são casado,
Cuidado com o Gavião!

Chorei, porque
Fiquei sem meu amor
O gavião malvado
Bateu asa foi com ela,
E me deixou

O culpado disso tudo é
O marido de agora, a muié
Anda na rua com as canelas de fora!
Gavião tomando cheiro,
Vem descendo sem demora
Pega muié pelo bico,
Bate asa e vai imbora!"

Passados muitos anos, já morando em São Luís, ouço na rádio uma música e reconheço a letra. A música cantada por Seu Margarida não é nada mais nada menos do que a música "Gavião Calçudo", uma composição resultante da parceria de Pixinguinha e Cícero de Almeida (o “Baiano”), lançado em 1929.
Clipe da Música "Gavião Calçudo"

Hoje vejo que a maioria dessas pessoas não tiveram oportunidade de acesso a tratamentos a seus casos relativos à saúde mental.Com o tempo fui compreendendo que estas pessoas taxadas de loucas tinham uma características em comum, todas foram autênticas, únicas, sinceras, verdadeiras e marcantes. Com o tempo passei a entender ainda mais as falas do grande escritor Ariano Suassuna: "Eu gosto muito de história de doido. Não sei se é por identificação. Mas eu gosto muito" e "Os doidos perderam tudo, menos a razão" e uma certa liberdade.

É isso... Mas, fica a curiosidade: quais seriam nossas características mais marcante não fosse nossas terapias ou nossos tarjas pretas de cada dia?

sábado, 20 de janeiro de 2024

NEM TODO MUNDO PODE APERTAR O BOTÃO DO BBB

   "Quando a sua identidade é forjada no mundo virtual e você se vê jogada no mundo real… esse desconhecido", postou em uma rede social a escritora Glória Perez acerca da desistência de Vanessa Lopes do Big Brother Brasil 24, programa da TV Globo. 

Vanessa Lopes, influencer e ex-BBB

    Para que esse texto faça maior sentido para você que não acompanha o reality show eu preciso dizer quem é Vanessa Lopes. Trata-se de uma jovem pernambucana, influenciadora digital, dançarina e cantora brasileira, de 22 anos, com mais de 30 milhões de seguidores no TikTok, onde faz sucesso com suas coreografias. Em resumo, uma das famosas convidadas a participarem do programa. Acontece que na última semana a participante vinha mostrando indícios involuntários que algo sério estava acontecendo com seu psicológico. Vendo sinais na parede, sentimento de perseguição, que todos eram atores contratados para lhe tapear, que todos estavam dando sinais de que os acontecimentos eram ligados a sua estadia no reality, acreditar que os artistas que fazem shows na casa estavam dando mensagens secretas para ela ou falar que recebe sinais dos quadros de decoração do local e outros.

       Sendo dessa geração, e sendo ela uma "personagem" que cresceu pessoal e profissionalmente ligada ao mundo da Internet e acabou por desenvolver uma personalidade virtual. A Vanessa Lopes que as pessoas conhecem é uma menina segura, confiante, vibrante alegre, feliz, que canta e dança... enfim, as pessoas conhecem só uma "imagem idealizada" que a Vanessa real quer mostrar, que gera engajamento. 

Vanessa Lopes durante crise de choro

     A geração TikTok vive nesse mundo em que as amizades vêm através de likes, o bem-querer se mede pela quantidade de seguidores e o conhecimento íntimo mais profundo do outro está nas nos feeds, reels e storys de cada um. Ora, se para as pessoas de gerações anteriores, assim como eu, que teve criação em um mundo real e pé no chão, que ainda tem a conversa olho no olho, que visita casa de um e de outro (embora com moderação), de experiências de infâncias raiz é difícil se encontrar nesse mundo virtual. Imagina para os que vive com a cabeça em outro mundo, como se fosse de fato um ser vivente no famoso metaverso.a 

       Só para se ter uma noção, em 2023, eu passei por alguns problemas psicológicos e psiquiátricos dadas às minhas experiências de vida que não me foram positivas em diversas fases de minha vida. Se antes me sentia sufocado por ser de uma família muito querida, tida como referência na cidade em que morava, vivia a comparação com os irmão mais velhos, inteligentes e estudiosos associado ao medo que tinha da reação das pessoas quanto a revelação da minha sexualidade. Agora, mesmo eu sendo um bom e belo exemplar de um autêntico leonino, eu não conseguia avançar em alguns aspectos da minha vida. Uma coisa que estava me prejudicando bastante era a possibilidade de ser pautas negativas das conversas das pessoas, o comportamento, olhar torto, as mudanças de assunto quando eu chegou perto delas... o medo do julgamento passou a me incomodar mais que antes. E eu tendo sido criado a base olhar percebo os mais sutis movimentos dos olhos durante as conversas, por exemplo. 

Momento em que Vanessa Lopes aperta o botão de desistência do BBB24. Fonte: internet 

       Com o tempo fui querendo eu ser um cara mais educado, mais cortês e racional nas minhas reações e respostas às situações da vida passei a tentar ignorar. Mas, depois ficava me consumindo e criando ranços, raivas, rancores, ódios, tristeza, ansiedade, depressão e pensamentos negativos. Tudo isso vindo crescendo de forma discreta e que só foi possível perceber quando já estava muito sufocante. Tudo isso crescendo como um avalanche e levando em consideração que eu não estava em um confinamento cercado e vigiado 24 horas por dia, apesar de postar muitos momentos "felizes" nas redes sociais. Para avançar esses pontos eu procurei ajuda psicológica e psiquiátrica que me acompanham até hoje e me farão companhia por tempo indeterminado.

Se para para mim que já tenho 44 anos, fui criado em um mundo real e não tenho a vida tão expostas tem sido um processo seguindo passo a passo, imagina esses jovens de vida virtual e superficial.  

    Voltando à pobre menina rica, Vanessa Lopes, que estava no confinamento global, ela disse por vezes que estava com medo do cancelamento na internet, estava com medo do julgamento paternos - ela disse que eles são frios e acham que chorar é coisa de gente fraca - e apresentou sintomas de nomofobia, transtorno causado pela abstinência do uso de celular. Em vários momentos apresentou picos de confusão mental... tudo isso foi gerando um sentimento de preocupação tanto nos colegas da casa mais vigiada do país quanto nos telespectadores do programa. A jovem, em meio a uma conversa e fazendo uma fala com sentido questionável, desistiu desse projeto que poderia lhe render uma premiação milionária. Levantou e apertou o botão que sinalizou sua desistência.

    Houveram até muitos casos de pessoas que reagiaram com preocupação, alívio e acolhimento, em especial alguns famosos. No entanto, após sua saída muitas brincadeiras sem graça foram postadas nas redes sociais. Muitas chacotas foram feitas... muitos deboches, muitos sarros foram tirados. Pois bem, em se tratando de uma pessoa com visíveis problemas psicológicos ou psiquiátricos é salutar essa postura ou pode pode agravar a situação? Fica aqui para a reflexão ao leitor. Contudo, na minha mais que humilde opinião, que já está formada, pelo meu histórico é que já vemos tantos casos de bullings cibernéticos e julgamento no tribunal da internet que terminam em morte que a reação das pessoas aqui fora deveria ser outra. Independente de gostar ou não da passagem da pessoa pelo programa, independente de cor, raça, religião e/ou posição política. Só pra citar o caso mais recente, as pessoas esqueceram o que aconteceu com a jovem Jéssica Canedo que foi julgada depoia viralização da fase news que dizer que ela tava de romance com o humorista Whindersson Nunes?

Jéssica Canedo e Whindersson Nunes.  Fonte: internet 

 Precisamos ter mais responsabilidades com o que vamos postar nas redes sociais, em especial as pessoas que têm muitos seguidores e que acabam por ter, por isso, mais peso nas opiniões lanacadas nas redes, pois acabam por influenciar outras pessoas a compartilharem de suas opiniões equivocadas.

  Em 2023, com ajuda dos profissionais que me acompanharam e dos que me acompanham atualmente eu consegui perceber muitos dos meus gatilhos que startam em mim muitos sentimentos negativos. Aprendi que preciso me acolher mais, não me julgando quanto a estes sentimentos por serem reações a situações vivenciadas de forma equivocadas e que não foram resolvidas da forma adequadaou se quer nem foram resolvidas. Além disso, houveram tantas outras situações que jamais poderiam ter sido vivenciadas por mim - e nem por ninguém, em especial enquanto criança -, mas, que por razões de terceiros fui vítima.

     Para 2024 minha principal meta é tirar do coração e da mente a questão de ainda ser vítima dessas situações passadas e de todos os sentimentos negativos que isso me causa ainda nos dias de hoje. Isso inclui acreditar mais em mim mesmo e julgar-me bem menos. Preciso ser muito mais #TeamRivas.

     Para chegar até esse meu estágio tenho o suporte profissional há um certo tempo. E quem não tem percepção de que precisa buscar ajuda? Ou não tempo hábil dessa busca durante uma crise? E quem não tem condições ou possibilidades de buscar a ajuda necessária? Ou pior ainda... e quem está em crise e é pego de repente, de surpresa por algum gatilho? Nem precisa ser um gatilho graaande e crueeel, pode ser uma "brincadeira" para quem faz, pode ser uma frase, um comentário... ninguém nunca sabe o nível do problema de saúde mental de outra pessoa. Quem tem ansiedade, depressão ou sindrome do pânico, por exemplo, entra num desespero gigante em que tudo é drastica e monstruosamente maior do que na real pode ser para quem tá de fora. Entretanto, é um sentimento de que a vida da pessoa é só problema sem fins. É tanta confusão mental que para parar tanto sofrimento só tem um fim... sair desse mundo. No mundo real não tem um botão do BBB pra pedir socorro. Só quem tá doente sabe o tamanho dos fantasmas que lhe afligem. E quem desejar isso a outra pessoa a não é mais humano. Quem não souber o que dizer, que não diga nada, mas que acolha nos gestos, ações ou simplesmente ouvindo. Sem julgamentos!


quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

BETTUS SILVA: 45 ANOS CRIANDO E COSTURANDO ARTE

Por: Rivanio Almeida Santos

Card de Divulgação 

Ícone na moda maranhense, o ludovicense Alberto Silva de Oliveira Filho, nosso querido Betinho, está comemorando em 2023 mais um ano de carreira repleto de história e muito sucesso. Quem olha sua alegria e sua disposição pode achar que tem pouco tempo nessa trajetória dada sua empolgação em tudo que faz. Ledo engano de quem pensa que foi rápido e fácil construir uma marca forte e referência à moda maranhense e à alta costura regional.

Em janeiro de 2024 completará 61 anos de vida e também que respira os ares desse universo mágico da costura de transformar tecidos em peças que abrilhantam os grandes salões e as melhores passarelas da cidade. Sua primeira inspiração foi Dona Maria José, sua mãe (in memorian), que sustentou a ele e a seus irmãos como costureira. Vendo a satisfação das clientes e, principalmente, a satisfação pessoal da matriarca da família, aos 15 anos Betinho decidiu entrar no mundo dos tecidos, tesouras, linhas e alfinetes. Ele quis aprender, e ela lhe ensinou com afinco suas técnicas da arte de costurar. Depois que aprendeu o ofício, passou a desenhar seus próprios figurinos para entregar um serviço ainda mais completo e com sua personalidade. De lá para cá aplicou todas as técnicas aprendidas da mãe e desenvolveu as suas próprias que lhe deram ainda mais know-how para chegar hoje a 45 anos de carreira a frente do ateliê Betus Silva. E nesses 45 anos mais que uma simples assinatura, deu seu nome a toda uma vida como estilista, costureiro e aderecista. Além do Maranhão o seu ateliê fez história em terras cearenses e cariocas. Betinho levou sua arte para Fortaleza e Rio de Janeiro, onde teve, mas também levou, oportunidade de mostrar seu talento para escolas de samba e para os salões e eventos festivos através de grandes nomes das artes e da sociedade brasileira.

Cantora Alexandra Nícolas vestindo criação Bettus Silva

Tamanha dedicação e entrega lhe renderam ser conhecido aqui na ilha como “O Estilista das Estrelas”. Isso porque seu trabalho e seu carisma seduziram as mais diversas clientes. Entre elas importantes jornalistas, colunistas sociais, apresentadoras, empresárias, socialites e, principalmente, artistas, misses e noivas. Todas realizando o sonho de vestirem-se com muito carinho, capricho, brilhos, bordados, bom gosto e muito, muito glamour que são suas marcas registradas. Aliás, bom gosto e glamour sempre estiveram presentes desde o início de sua carreira quando, ainda nos anos 80, fez seu primeiro modelito que foi uma Blusa Cacharrel preta de renda, toda rebordada de canutilho e strass, e saia godê em forma na cor verde de cós preto. Sorte inicial de Raphaella Kennya, Artista Drag Transformation, sua primeira cliente, e para quem faz produções deslumbrantes até os dias atuais.

E falando em Arte Drag, se faz necessários pontuar a importância suprema da pessoa Betinho e do Ateliê Betus Silva à história do cenário LGBTQIAPN+ maranhense, tanto para shows, espetáculos, desfiles ou, simplesmente, para um “’close na nigth”... o movimento sempre contou com sua presença, apoio, incentivo e patrocínio. Vale ressaltar ainda que seu tempo de trabalho à moda, digamos, tradicional se confunde com seu tempo de dedicação à arte direcionada a esta comunidade que prima sempre por apresentar, apreciar e vestir o melhor que há em extravagância, adornos, brilho, plumas e paetês sem perder – jamais! - o estilo, a elegância e o glamour. Importantes nomes já levaram às passarelas, às festas e a programas de televisão locais, nacionais e para diversas partes do mundo - sempre com destaques primorosos - as produções inconfundíveis e irretocáveis desse criador exímio. Aliás, se é para falar de história vale deixar registrado que suas criações nunca passaram incógnitas quando os temas também são Misses e Noivas para os quais sempre foi muito procurado, inclusive, chegando a fazer desfiles exclusivos com temática Noivas.

Boneca Barbie vestida com criação de Bettus Silva


Sabedor que, além dos trabalhos brilhantes do dia a dia, é importante para um criador festejar sua arte mostrando suas criações ao seu público em potencial, Betinho passou a produzir grandes e esperados desfiles. Já foram 08 realizados nos lugares mais diversos da cidade. Começou na Boate Tucanus e passou pelo Convento das Mercês, Sesc Deodoro, Galeria Trapiche, Centro de Criatividade Odyllo Costa Filho e Hotel Panorama. Isso se referindo a desfiles com modelos vivas, desfilando de com suas próprias pernas... Pois, quando o assunto é “desfile estático”, ou melhor, exposições o artista tem uma história linda, e fofa, na moda para bonecas. Sua coleção de bonecas Barbies vestidas de noivas e roupas de gala já foram expostas em outros tantos lugares e ocasiões especiais sempre prestigiadas por quem gosta de moda e, em especial, da arte do artista que é sempre extraordinário.

Por conta dessa história profissional muito inspiradora e para comemorar 45 anos dedicados à moda e ao bom gosto o artista e sua produção prepararam tudo de lindo que se viu no Desfile Show A Luz da Moda Por Bettus Silva, realizado na noite do últimodia 13 de dezembro na GaleriaTrapiche. Aliás, assim como sempre faz em seus desfiles - e que faz parte de sua assinatura - para esse momento Betinho exibiu em sua coleção um casting escolhido a dedo. Estiveram na passarela modelos profissionais, personagens e personalidade locais como convidadas especiais para apresentarem aqui criações feitas exclusivas para este momento, mas também peças importantes na sua história e que foram gentilmente emprestadas por algumas de suas clientes.

Bettus Silva e Bia Maranhão sua noiva do desfile 2023.

O que se viu definitivamente não foi um desfile comum. Os expectadores que foram prestigiar este, que foi um verdadeiro acontecimento na cidade, tiveram de presente um Desfile Show es-pe-ta-cu-lar, como jamais se viu na cidade. Para ilustrar ainda mais a ocasião houveram shows de fiéis amigas, parceiras e clientes. Três das Drags mais Poderooosas do cenário maranhense, Raphaella Kennia, Luana Pfeifer e Adrianne Bombom. Além disso, os presentes tiveram a oportunidade de ver dentre as desfilantes, vestindo o que também é uma marca registrada de Betinho, uma grande personalidade LGBTQIAPN+ do Maranhããão, Bia Maranhão, que fora ovacionado pelo público.

Estilista Bettus Silva ladeado por Rivanio Santos e Enoque Silva

Os que estiveram presentes foram surpreendidos com a arte, a criatividade, o bom gosto e o glamour de Betus Silva no evento que entrou para história da moda maranhense.

Com produção da Sítio Produções, Patrícia Medeiros e Inaldo Aguiar. Apoio da Prefeitura de São Luís por meio da Secretaria Municipal de Cultura e da Galeria Trapiche, Armarinho Só Linhas, Carlos Garcia, Enézio Ramos, Enoque Silva, Folhagem Decor, Ilmar Júnior, Jaqueline Montelo, Ellen Karen, Magazine Folia, Marcos Duailibi, Natty Santana, Osvaldo Rodrigues e Rivanio Almeida.

Todos se deleitaram com o Desfile-Show Luz da Moda por Bettus Silva!

Bia Maranhão, Bettus Silva e Ilmar Júnior 

Rivanio Santos e Ilmar Junior

Jornalista Joel Jacinto, Ilmar Júnior e Bettus Silva ladeado por suas modelos.

Enoque Silva, Marco Duailibe e Bernardo Oliveira 

Modelo

Adrianne Bombom

Modelos


quinta-feira, 2 de novembro de 2023

UMA CONQUISTA DA RESISTÊNCIA QUE REFLETE EM REPRESENTATIVIDADE

Ashira Morais


Já escrevi e falei tantas vezes que quando criança eu não via em minha cidade muitas referências LGBTQIA+. Alguns que tinham - recordo de 03 deles, um era estudante e atualmente é professor, um era motorista de caminhão e um amansador de garrote e touros - hoje vejo que eram pessoas muito trabalhadores, contudo, apesar desse perfil comum a eles eram pautas de conversas das más línguas. Crescer ouvindo os comentários maliciosos e debochados a despeito deles me davam a certeza de que no futuro não muito distante eu seria o alvo. Se é que já não era...

Por um lado não havia uma geração, uma comunidade que batesse no peito com orgulho de ser quem era e exigisse o respeito a qual eles também tinham direito de forma a se tornarem referências para nós pré-adolescentes em autodescobertas em busca de inspiração e representatividade. Mas, por outro era possível perceber na minha geração - eu nasci em 1979 - e, por volta dos anos 1990, quando eu já sabia mais de mim passei a identificar características minhas comuns em vários outros. Foi um sentimento de não ser sozinho.

Eu poderia citar aqui pelo menos seis nomes de meninos que naquela época eu já sabia eram iguais a mim. E que, para além do jeito de andar e de falar, tínhamos comum o fato de sempre sermos vítimas de "brincadeiras" que hoje identificamos como atos de intimidações, humilhações e violências psicológica, o famoso bullings pelo simples fatos de sermos crianças afeminadas. Mas, não cita-los em respeito a individualidade de cada um. Contudo quero falar de uma pessoa em especial, que no ápice da pandemia do covid-19 reencontrei pelas redes sociais.

O fato é que naqueles tempos tenebrosos a vida se tornou ainda mais virtual. Assim sendo, eis que certo dia me deparo com uma indicação de amizade do Facebook. Quando vi a foto do perfil achei o rosto muito familiar, aquele olhar eu ja tinha visto, mas não o nome eu nunca tinha visto ou ouvido. Analisei com calma, fui nas amizades em comum... identifiquei que éramos conterrâneos e voltei a foto de perfil. Me concentrei no olhar e vi a criança que eu conhecia muito bem. Estou falando de Ashira Morais.

Quando criança, ainda conhecida pelo nome de primeiro registro, ela já era diferente. Vestida de menino, mas sempre foi muito delicada e educada como a menina que era. Não me refiro aqui só aos seus trejeitos. Também. Mas, falo de postura e coragem diante da vida, mais precisamente do enfrentamento aos ataques dos "coleguinhas". Enquanto alguns reagiam jogando pedra, correndo, chorando (eu), xingando ou mostrando o dedo médio, ela já respondia com palavras, tinha vocabulário, usava argumentos de gente além da sua idade. Ela respondia, dava as costas e saia de cabeça erguida. Certa de que usando palavras ninguém seria superior a ela ali. Todos eles sempre perderiam. Ela já tinha a coragem que eu queria ter e que bem mais tarde adquiri.

O tempo passou, mudei para São Luís, e a última notícia que tinha dela era de que também tinha ido embora de nossa Santa Teresa do Paruá. Nunca mais tinha tido notícias dessa figura tão marcante até o dia em que a rede social do Mark Zuckerberg me sugerir como nova amizade. Na ocasiao quando identifiquei de quem se tratava mandei um convite de amizade ao qual prontamente fora aceito. Fiquei muito contente em ter constatado que Ashila, morando em Imperatriz (MA), tinha se firmado como uma mulher trans e mais ainda quando descobri que sua inteligência e determinação a tinham levado rumo à um futuro pautado na educação. Ela agora era Teóloga, Pedagoga, Mestre em educação com ênfase em Políticas públicas e fazia o curso de Direito. Descobrir isso, não despertava em mim um sentimento necessariamente de surpresa, mas de orgulho, pois eu sabia que se ela focasse no estudo poderia ir longe. E a danada, estava (está) indo, pois soube buscar seu caminho.

Link do debate "O Paradigma Bíblico e as Homossexualidades"

Alguns dias após essa retomada de amizade, agora virtual, me deparei com um vídeo dela, na mesma rede social, fazendo um convite para um debate que tinha como titulo "O Paradigma Bíblico e as Homossexualidades", que seria transmitido pelo canal "Arena Apologética" no YouTube (a quem despertar vontade de assistir ainda  está disponível:). Na ocasião ela debateria com o Professor Dr. Mateus Rangel, apresentado por ela como um excelente pensador Cristão. Mas, porque uma mulher trans aceitaria participar de um debate com esse tema? Ela mesma disse que seria uma oportunidade para "provar que não há nenhuma incongruência bíblica em a pessoa ser gay, homossexual e professar a sua fé na pessoal de Jesus Cristo". Eu assisti ao debate. Seu opositor, de fato um professor muito estudado, mas Ashira deu uma aula de postura, educação, paciência, cordialidade, conhecimento, argumentação, fundamentação... Enfim, parece que durante a live eu assistia seu crescimento e desenvolvimento diante dos meus olhos. E constatei que seu curso de teologia não fora feito por fazer. Ela estudou a fundo. E suas falas ricas de embasamento formam uma aula de conhecimento cristão de quem de fato entendeu os ensinamentos das palavras de amor ao próximo que Cristo trouxe ao mundo. Aliás, seu nome é hebraico e significa rica, abastada.

Ashira Morais no dia do juramento na OAB Maranhão,contando com a presença do Dr Rakley Bueno, da comissão de diversidade da OAB.


De lá pra cá, essa jovem terminou seu curso de Direito e, nesta última semana, saiu o resultado das provas da ordem e qual resultado seria se não a aprovação dessa mulher incrível no exame da OAB? Confesso, que mais uma vez não fui supreendido por sua aprovação, pois sempre tive ciência de sua inteligência e já sabia de competência e qualificação. Novamente o sentimento que tive foi de orgulho, pois cada degrau que um de nós da comunidade LGBTQIA+ some, não é apenas um simples passo dado. É sim uma grande conquista. É a vitória de uma luta diária de toda uma gente que tem diariamente seus direitos negados. É a resposta a todos aqueles que riam, aprontavam, maldavam, praguejavam e nos vitimavam. É mostrar que cada pedra jogada no caminho foi usada para pavimentar este caminho, usado para nos levar aonde nós quisermos ir. A conquista de Ashira não é somente uma vitória pessoal, é também - até pelo fato dela ter se dedicado muito em busca desse sonho, mesmo com sua vida corrida diária - mas, é, principalmente, uma conquista nossa - LGBTQIA+ conterrâneos seus - e de todos aqueles e aquelas que olham para sua história e se veem representados por ela, que olham para sua trajetória e veem que sim, é possível um caminho e um destino diferentes daqueles "profetizados" pelos que nos condenam.


Viva Ashira!

sábado, 14 de outubro de 2023

CURA GAY: A MENTIRA QUE MATA


Blogueira Karol Eller


Poucas pessoas sabem que eu faço terapia há algum tempo para reorganizar minha mente das configurações feitas nela ao longo da minha vida, em especial na infância e adolescência. É nesse período da vida que nosso entendimento a cerca do mundo e da vida estão sendo formados.

Nasci em uma família grande, linda, querida, amável, solidária e muito admirada. Todos nós sempre sentimos o amor incondicional uns dos outros, apesar da discussões, bate-boca, das lapadas, puxões de cabelos e porradas (que irmãos nunca chegaram as vias de fato, né?!). É preciso registrar que, dependendo das razões e da intensidade, isso deixa marcas muito fortes, apesar dos perdões, dos abraços, beijos e carinhos.

Eu sou o oitavo filho de minha mãe e meu pai - muitos sabem que ele deixou outros dois filhos incríveis mais novos que eu e aos quais conhecemos após sua morte -. Muito cedo me descobri diferente dos meus irmãos e a questão não era com o corpo. O fato é que meus gostos eram mais próximos dos gostos das minhas irmãs e amigas apesar de sempre ter vestido azul. Tínhamos muito mais afinidades. Embora eu sempre tenha tido amigos meninos, eles tinham umas brincadeiras para as quais eu tinha até um certo gosto, entretanto não tinha as menores aptidões.  Agora imagina que se eu já me percebia diferente imagina as outras pessoas olhando para um garotinho que não tinha controle da munheca, da voz, das gargalhadas e muito menos do corpo que desenvolvia com coxas grossas, quadril largo e dos peitos com ginecomastia? Por vezes fui chamado de menina, como forma de constrangimento.

Recordo perfeitamente que ainda por volta dos meus 5 ou 6 anos meus irmãos com seus amigos (todos já chegando à pré-adolescência ou adolescência de fato), enquanto descansavam do jogo de bola do meio da rua estavam conversando sobre as meninas que achavam bonitas e eu despretensiosamente verbalizei que um homem que passa na frente da nossa casa era bonito e ganhei um cascudo de um dos meus irmãos e um coió dos colegas deles, pois homem não pode achar outro homem bonito. Foi um fim de tarde inesquecível por ter sido muito, muito traumatizante descobrir que eu estava na contramão.

Sendo eu a "ovelha pink" da família cresci sendo apontado na rua, ouvindo em casa pra sentar direito, falar grosso como homem, que eu era muito moreilão, que era para sorrir direito e tal. E vestindo azul, inclusive camisa de botão e calça de tergal... Fora isso haviam as brincadeiras homofóbicas que, embora nem sempre  direcionadas a mim, eu me reconhecia como uma criança diferente e isso me faziam sentir que eu poderia ser o ridículo da história. E haviam as situações de discussões na escola, ou com os coleguinhas vizinhos, que me faziam ser alvo dos bullings e lá vinham apelidos de veado, veadinho, baitola, boiola, qualhira e feta e tantas outras formas pejorativas usadas para ofender alguém que, assim como eu, tinha um comportamento distinto dos demais garotos. Como se não bastasse tinham as conversas nas rodinhas de fofoca sobre quem era e quem deixava de ser... Na igreja em que me congregava ouvia que os afeminados eram frutos do diabo, que não eram crias de Deus, que Deus fez Adão e Eva. Disseram tantas vezes que o contrário disso era penalizado com a desgraça de ser queimado no fogo do inferno que eu ficavam aterrorizado!!! E qual o primeiro resultado? Sai da igreja? Pq ao invés de me aproximar de Deus, fazia eu me sentir como se estivesse mais perto do diabo. Fui então procurar um diálogo direto com Deus e uma forma de compreendê-lo como um Ser Divino e Maravilhoso e conheci Ele sendo mais misericordioso do que o que me ensinavam naquela época.

Quando adolescente recebi propostas de pessoas próximas a frequentar prostíbulo... com tudo pago!!! Eram tentativas para que eu me transformasse. Já fui assediado diversas vezes para "voltar" à igreja, para "aceitar" Jesus... gente... como assim?! Por favor... nunca deixei Deus de mão e nunca Ele largou a minha. Nem nas minhas horas mais difíceis. E sou grato por ainda ter tido sanidade para perceber quando Ele tocou o meu coração no exato momento que eu supliquei pelo fim.

Sei que os tempos são outros e para alguns, que podem argumentar assim como eu já o fiz tantas e tantas vezes, que eram anos 1980 e que a temática não era bem debatida e o entendimento das pessoas não eram tão bem aprofundadas e com a facilidade de acesso às informações que se tem hoje. Contudo, um dos ensinamentos Divino, que têm mais de 2000 anos, fala de amor ao próximo. Diz que devemos amarmos uns aos outros como a nós mesmos. E a hipocrisia faz as pessoas amarem a si e condicionar o amor ao outro.

Bom, o meu resultado nisso tudo foi uma criança encucada, um adolescente pertubado psicologicamente e homem em conflito interno sobre o sua condição de vida afetiva e sua relação com o pecado, com a possibilidade de desagradar à família, os vizinhos e, o pior, a Deus, que sempre me foi pintado como um vingandor que abatia e condenava ao inferno os pecadores como eu. Cresci um ser com medo de ser "descoberto", com o horror da negação, o pânico de ser expulso de casa, de não ser amado pelos meus, de ser vítima de violência física na rua, de não ter como se manter, de não formar família e com muita incerteza do futuro. Esses foram sentimentos sempre foram gigantes e me causaram assombração a vida toda. Mais que isso, causaram-me ansiedade, depressão e a vontade de morrer para deixar de ser o problema e a causa da vergonha de todos. Foi quando tive o coração tocado num momento muito tênue de lucidez. E, graças as condições dos benefícios que a empresa onde trabalho me proporciona e, ainda me sentindo um condenado a ser a escória do mundo e da vontade Divina, procurei ajuda médica especializada, pois não aguentava mais minha mente tão conflituosa. Já se passaram mais de 10 anos e ainda sigo com meus acompanhamentos psicológico e psiquiátrico, pois, além disso tudo, a vida de adulto vai adicionando outros elementos que fazem com que precisemos de suporte para solucionar, ou pelo menos compreender, muitas situações pelas quais passamos.

Em paralelo a tudo isso mantive a relação familiar de muito amor e respeito, boa relação com amigos e colegas apesar das divergências que a vida impõe. Pois, dentro de todo esse contexto busquei trabalhar a minha compressão da época de criação, o acesso a informações, o limite de interpretação e a capacidade intelectual para compressão de cada um deles.  Com isso alguns foram compreendidos e aproximados e outros distanciados do meu convívio, pois não sou obrigado a conviver com quem não me enxerga como um ser filho de Deus, como acredito ser. Aliás, como sou!

Estes dias vi umas postagens com a frase "Não somos homofóbicos. Nós amamos o pecador, mas abominamos o pecado"... Na minha compreensão, que passa pelo meu sentimento, isso não ajuda em nada, não elimina o preconceito e não faz bem algum ao "pecador". A frase pode até aliviar a consciência de quem a emprega ou publica. Mas, ela é mais uma reafirmação daquilo que ouvi a vida toda... a vida do homossexual é um pecado abominável, que significa detestável, execrável, odiável, odioso... É reforçar uma cultura de ódio, é dizer que esse "mal", que é a vida da comunidadeLGBTQIA+, é passível de ódio, pois é errada. E, sendo a homossexualidade minha condição de vida - uma vez que nasci assim -, é dizer que eu sou um erro!... "olha eu te amo... mas odeio a tua vida, pois ela é reflexo e sinônimo do que você é... mas, oh... eu te amo tá?!"... oi????

Estes dias eu vi uma notícia que me deixou muito triste e com medo, pois foi um gatilho muito forte na minha cabeça, dadas a todas estas situações mencionadas acima. Uma blogueira que conheci pelas redes sociais por ser homossexual, no caso lésbica, e por ter suas convicções políticas completamente de direita, apoiando um candidato declaradamente homofóbico (na dúvida dê um Google), voltou às manchetes em todos os veículos de comunicação.

Karol Eller era o nome da blogueira. Foi poiadora do último ex-presidente e entrou em conflito interno, quer dizer... ela entrou no mais alto nível de batalha, de guerra consigo mesmo. Sabe por qual razão??? Pelo "absurdo, imperdoável e ABOMINÁVEL pecado" - contém ironia - de ser lésbica.  Chegou a um determinado ponto de situação da vida da Karol que  ela "deixou de querer ser" quem ou como era de fato. Isso ocorreu depois que passou a frentar uma igreja de pessoas que tinham as mesmas convicções políticas que as suas e que lhe propuseram um processo de cura da sua homossexualidade. Ela, por alguma razão que nao conhecemos, aceitou ser "curada".

Sabe-se lá os meios utilizados para esse processo de "cura"... o fato é que ela, uma mulher lésbica, jovem, determinada, corajosa, cheia de vida e de opiniões fortes passou a se reprimir, a se negar, a se anular e entrou em conflito com o que era, com o que diziam ser a verdade, com o que não queria mais ser, com o que ouvia como palavra de salvação, com o que agora queria ser e, principalmente, com o que era de fato... Gente, quando se está nesse nivel de situação é uma tortura interna involuntária! Só quem já passou por esse nível de confusão mental, independente das razões, sabe do que estou falando.

Karol Eller deve ser sofrido muito. Aliás, ela sofreu demais! Um sentimento, um sofrimento - isso sim abominável - que não se deseja nem ao pior inimigo que por ventura se possa ter. Contudo, o sofrimento de Karol Eller acabou. Pena que da forma mais triste que poderia ter sido... Ela pôs fim, não apenas aos sofrimentos causados pelos conflitos internos gerados pelos seus algozes externos. Ela pôs fim a sua história. Ela perdeu a própria guerra.

E eles??? O que serão de seus "salvadores", como seguiram seus "curandores"? Eles seguirão como tantos outros... seguirão amando tantos e tantas outras Karols e abominando seus pecados que é viver sendo quem são. E a cura gay seguirá como sempre foi, através da auto-eliminação.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

INFÂNCIA NOS ANOS 80 E 90 EM SANTA TERESA DO PARUÁ

Minhas irmãs Rogenia e Rogenia, Rafaela - sobrinha de minha tia, Tia Ana e eu.

Toda vez que vou tomar banho gosto de assistir pelo YouTube os cortes do programa "Que história é essa Porchat?". Nesse programa as pessoas convidadas, geralmente os famosos e pessoas da plateia, contam situações inusitadas e engraçadas que já passaram. Muito bom!!! Ao final do programa ele sorteia algumas perguntas que os artistas convidados devem responder. Uma das perguntas é "qual sua primeira lembrança?". Toda vez que vejo essa parte do programa eu sempre me faço mesma pergunta. E viajo no tempo ao tempo de minha infância.


Algumas coisas, confesso, gostaria de nunca mais lembrar, pois foram coisas que, descobri na terapia, me desconfiguram o psíquico ou, pelo menos, me programaram de forma equivocada. Kkkkk Não me refiro a minhas essência ou a minha condição afetiva. Mas, falo de questões de postura, ponto de vistas, desenvolvimento de um jeito mais intempestivo e outros modos de agir em determinadas situações... enfim. Um dia escrevo exclusivamente sobre isso. Hoje quero falar das boas lembranças. Afinal, além de ser dia de N. Senhora Aparecida, hoje é dia das crianças.


Tenho muuuuitas lembranças de minha infância, lá em Santa Teresa do Paruá, e gosto de escrever sobre elas pelo fato de me ajudarem a fincar o pé no chão e por me ajudarem no processo de reconfiguração da minha cabeça - todos os psicólogos que já me atenderam agradecem kkk - e por ser a forma de contar um pouco daquela cidade onde nasci e vivi, hoje sei disso, muitos momentos felizes e importantes.


Hoje quando vejo as crianças tendo que ficar dentro de casa, presos às telas, sinto uma pena enorme pela falta vivência com interação como antigamente. Experiências importante na formação de caracteres e, em especial, de formação de memória afetiva que nos fazem crescer e amadurecer de forma mais saudável e felizes.


Minha rua, aliás, minha pequena cidade sempre teve muitas crianças... sinceramente não sei se pela falta de TV e energia elétrica - esta só chegou por volta de 1989 mais ou menos -. Mas, o fato é nossos pais eram de uma geração em que se tinham muito filhos. Então era comum se ver muitas "patotinhas" de "pariceiros" pra todo lugar que se virasse.


Recordo perfeitamente que ao lado de minha casa, tinha um galpão que era de propriedade de amissímo nosso, Sr. Sebastião Falafina. Esse galpão foi hospital, usina e depósito. Mas, antes disso tudo recordo que foi uma espécie de cinema do Sr. Paraguçu. Lá assistir alguns filmes de Os Trapalhões e onde eu assistir, não recordo se um clipe ou filme, que tinha a música "O Menino da Porteira" do cantor gaúcho Teixeirinha. 


Naquela mesma época curtíamos as brincadeiras que tínhamos conhecimento e

para as quais usávamos as ruas que eram só de areia, muito antes de colocarem piçarra e depois asfalto. Brincávamos de jogar bola, de guerriou, partido, brincadeira de roda, boca-de-forno, cair dentro do poço, passar anel, cola, queimado, trinta e um, esconde-esconde, comer peixe com chuncho, soltar papagaio, jogar peteca (bola de gude), pega varetas (na calçada), jogo de dominó, jogo de damas, correr na correnteza em dia de chuva, andar de bicicleta pela cidade à noite, contar histórias em noites de lua, banhos no cai n'água e saltos mortais nas cascas de arroz das usinas.Tínhamos muita interação entre nós. Nossa vivência era de muito companheirismo e consideração de vizinhos quase irmãos. Eram tempos que tínhamos liberdade de entrar e sair da casa qualquer pessoa com tranquilidade.


Fora as brincadeira que sempre tiveram como principal elemento de interação humana entre as crianças lembro com admiração , sem querer romantizar as nossas dificuldades de então, dos diversos brinquedos fabricados pelos pais ou pelas próprias crianças para suas diversões. Brinquedos como cavaletes de pau, cavaletes de casco de coco e cordão, carrinhos se lata de sardinha, ônibus e caminhões com lata de óleos, avião de papel, carrinho de rolimam, baladeiras, pião, bola de meia, papagaios e um - nao recordo o nome - que era uma lâmina de tampa de garrada refrigerante (de vidro) para cortar cordão em disputa de cortes dentre vários outros brinquedos caseiros.


Recordo que na falta de atrações e, para que todos tivessem entretenimento, os professores e alunos se juntavam com o pessoal da comunidade católica para organizar peças de teatro - dramatizações - e shows de calouros para os quais iam pessoas de todas a região e que me deixaram grandes imagens na memória como Raimundinha filha Quinô e esposa do Guilherme - mãe da Gleice minha amiga querida - se apresentou vestindo um saião xadrez e cantou "É de Chocolate", sucesso do grupo Trem da Alegria. Lembro do Hildo de Dona Zenilde cantando sucesso de Tribo de Jah. O Professor João Lira sempre arrasava em tudo que tocava e cantava... a plateia lotada pirava nas torcidas. Eram lindo!


Um dos anos mais mágicos foi o ano em que fizeram uma espécie de show da Xuxa Cover em que minha amiga Graciélia - que anos depois foi prefeita da cidade, já com nome de Presidente Médici - se vestiu de Xuxa, dublou e dançou suas músicas e fez sorteios reais de presentes dos quais eu fui um dos sorteados sem nenhuma combinação. Fiquei emocionado real. Kkkkk. Como Paquitas - elas hão de me perdoar pela lembrança - teve a hoje vereadora Eliane Fernandes, a Nara filha do João José e minha irmã Rogenia. Acho que elas faziam a 7ª ou 8ª série na época. Foi um dia maravilhoso.


Outra lembrança que tenho, esta nada agradável, mas que ajudou eu a iniciar meus dotes artesanais. Lá pelos idos dos anos 1980 a mortalidade infantil ainda era alta. Naquela época os anjinhos eram enterrados em caixões improvisados. Alguns rapidamente feitos de madeira ou em caixas de papelão. Em qualquer das alternativas as urnas funerárias eram sempre decoradas com florzinha de papel de seda branco, amarelo, verde, azul ou rosa. E foi fazendo flores para decorar caixões de anjinho que iniciei com meus trabalhos manuais. Eu tinha pavor de gente morta, contudo os casos pertinho de casa eu sempre dava um jeito de ajudar no trabalho apesar de eu ainda ser só uma criança também.


Como estamos no mês de Santa Terezinha, Padroeira da Cidade, recordei que pelos anos 1990 (não recordo o ano exato) tivemos uma grande gincana que movimentou a cidade todinha. Recordo de algumas provas que foram feitas como arrecadação de fruta da época, no caso caju - que foram direcionados para produzir suco para estudantes das escolas -, dramatizações contando a história da cidade, que foi fundada pelo Sr. Guilherme (irmão da D. Laura Parteira) - o mesmo que fundou a cidade de Centro do Guilherme - e a criação de uma música para a cidade. Engraçado que não me sei nada da música da minha equipe, mas lembro um bocado da música do grupo campeão. A música foi feita pelo professor Margalhães, uma versão de "Eu quero apenas", de Roberto Carlos.


"Santa Teresa terra bela e santa

Teu povo unido brinca, ora é canta

Glorificamos teu lindo nome

Exemplo pra mulher, menino, jovem e homem.


Tua terra é santa, de muita beleza.

Também protege sua natureza.

Glorificamos teu lindo nome

Exemplo pra mulher, menino, jovem e homem...".


É isso... não dar para recordar minha infância sem recordar tantos momentos vividos na minha Santa Teresa do Paruá.