domingo, 1 de agosto de 2021

SIMONE BILES E OS SALTOS SOBRE OS GATILHOS

 

Simone Biles executando um salto.
Fonte: Site CNN Brasil

Em uma das minhas sessões com minha Psicóloga Bruna eu disse que pretendia escrever sobre ansiedade e o destino que ela pode levar o passageiro que despercebidamente embarca na viagem perigosa que ela induz qualquer um a fazer. A pretensão não era, e não é, falar como um profissional estudioso do caso, mas como alguém que tem passado a vida pulando desse trem que volta e meia quis descarrilhar. Eu não sabia como começar, um medinho de escrever e reviver os sentimentos ruins que nossos gatilhos produzem me fez fugir da promessa ate agora. Contudo, alguns acontecimentos lá no Japão me acionaram um gatilho de coragem. Chegou a hora de parar essa  procrastinação e não fugir a promessa que fiz, não somente à Bruna, mas a mim  mesmo. Ter coragem para expulsar de dentro de mim alguns fantasmas. E falar algumas verdades e pedir para que você que está lendo reflita e faça a autoanálise nas situações. 

Se havia alguém no planeta que não conhecia a ginasta americana Simone Biles, creio que agora conheceu. A maior promessa de medalhas de ouro das Olimpíadas do Japão (2021) tem desistido de competir das finais de provas que poderiam fazer a maior de todos dos atletas de todos os tempos. Ela desistiu de competir as finais das provas como a individual geral, de salto, de barras assimétricas e trave para cuidar de sua saúde mental. Muitos nem se deram ao trabalho de fazer um “justo” julgamento, se é que é possível, se não teria levantado toda a história dela e todas as situações que têm enfrentado para chegar onde chegou e entender a importância de sua decisão. Embora tenha recebido bastante apoio, alguns já a condenaram por sua atitude, afinal... “já tava lá mesmo, né? Que que custava?”... "era medo de fracassar já que estava errando nas execuções das provas e não levar ouro"... "pura estratégia por causa de patrocinadores"... Que seja, se as consequências, mesmo que financeiras, poderiam lhe prejudicar ainda mais sua vida profissional e consequentemente sua saúdepsíquica, foi sua melhor decisão. Quem nunca ficou mal quando a situação mexeu no bolso Que? Que sua saúde não pague o preço pelas frustrações alheias.

Daiane dos Santos, Jade Barbosa e Daniele Hipólito.
Fonte: Globo Esporte 

Lembra do caso de ginastas vitimas de assédio sexual por parte de um ex-técnico da seleção de ginástica brasileira, o Fernando de Carvalho Lopes? O que esses jovens devem ter passado só quem já passou por algo semelhante pode imaginar. Recordo que em 2008 o canal ESPN veiculou uma  matéria no programa Histórias do Esporte que fez a ginástica brasileira dar muitos pinotes descompassados. No episódio as ginastas Jade Barbosa, Laís Souza e Daiane dos Santos, falaram que  foram várias obrigadas a treinar até a exaustão e chegaram a competir lesionadas. E, para culminar, eram obrigadas a terem uma dieta de apenas 800 calorias diárias. Nem vou detalhar os casos de racismo e das circunstâncias homofóbicas não combatidas pelos dirigentes de equipes.

Circunstâncias de pressões como estas não acontecem somente na ginástica ou no meio esportivo. Fora desse "Olimpo de deuses  e heróis" fantasiados e taxados por todos nós estamos rodeados de pessoa que vivem esses dramas. Vide a sociedade dos cancelamentos das redes e o crescente número de abusos nesse período pandêmico a que temos tido conhecimento pelos noticiários diários - sem falar os que não vêm à público. Situações na maioria das vezes causas por pessoas próximas. 

Muitas pessoas estão passando por situações semelhantes de violências tais que lhes causam, se não hematomas na pele, feridas na alma que são sentidas através de taquicardia, calafrios, desespero, sentimento de ser o problama do mundo, de que nada sua vida tem dado certo e uma vontade louca de sumir do mundo e com a única certeza que nada daquilo passará. Estes sentimentos ou sensações são estartados pelo que se chama "gatilhos". Eles podem ser situações, pessoas, falas, atitudes, cheiros, acontecimentos, uma simples música ou outras formas de lembranças da causa do sofrimento. Algumas podem acontecer na infância e prejudicar muitos aspectos da vida adulta. Eu descobri as razões de minha dificuldade em aprender a língua inglesa. Trago alguns exemplos de acontecimentos que se tornam gatilhos emocionais traumáticos perigosos:

- Quando se nasce sobre a sobra alguém é TEM que ser igual aos seus ou melhor que os outros.

- Quando se TEM o peso de TER que ser o que seus pais esperam, que seus vizinhos desejam, que sua esposa ou marido sonha ou tudo aquilo que seus filhos desejam.

- Quando você TEM que seguir o padrão que a sociedade impõe a cada temporada de modas e modinhas fúteis.

- Quando você TEM que se esconder no armário, atrás da parede, de uma imagem, dentro do seu coração ou da cabeça.

- Quando você TEM que vestir algo para agradar os outros ou quando você deixar de vestir o que deseja.

- Quando TEM que se comportar conforme a vontade alheia ou se calar sobre o que deseja falar.

- Quando TEM que ficar sério do que te faz sorrir e ou tem que sorrir do que te desagrada, entristece ou fere.

- Quando TEM que tirar somente notas altas e mostrar boletins e históricos escolares azuis por ser filho, irmão ou simplesmente pelo fato de ter que provar que você é diferentemente melhor e superior do que o estereótipo que pintaram sobre pessoas como você.

- Quando você TEM que se submeter a violências psicológicas, físicas e sexuais por ser você - mulher, gays, crianças, pretos - Mesmo que você mesmo ainda nem entenda quem e como você é ou não tenha formas de reagir às circunstâncias.

- Quando ainda assim você TEM que ficar calado, pois as falas de quem te violenta junto às circunstâncias do medo te fazem se sentir culpado pelas violências sofrida por você.

- Quando você TEM que sofrer em silêncio sem conseguir gritar para pedir socorro.

- Quando mesmo assim você TEM que ganhar todas as medalhas, taças, faixas, campeonatos, disputas, concursos...

- Quando você TEM que se mostrar bem, imbatível, sorridente, brincalhão, divertido, competente e que nada te abate.

- Quando você decide exorcizar seus fantasmas e TEM medo do julgamento dos outros, principalmente de quem você esperaria apoio.

- E, pior, quando você passa a acreditar em todas essas “obrigações” do verbo TER que as pessoas depositam em você para agradar a tão somente a eles.

Todos esses exemplos nós que passamos por uma situação ou várias delas temos que passar sozinhos e vamos debitando no banco de nossas emoções, do saldo de nosso psicológico e a conta não fecha. Isso tudo é tóxico. Isso tudo é venenoso. Tudo isso é um caminho minado, pois quando se carrega TODAS estas cobranças – sim, TO-DAS! Elas nunca vêm sozinhas, nem em duplas. Elas explodem em nossa vida de uma só vez, no máximo uma atrás da outra -  sem avisa.... PAH!!!  PEI!!! BOOOM!!! De surpresa! E como quase nunca se consegue atender todas as expectativas alheias o sentimento de frustração toma conta, os olhares e falas de julgamento e cobranças nos fazem afundar no sentimento de incompetência e fracasso.

Em um passe de mágica a pessoa se vê dentro de um poço fundo, escuro, gelado, sem roupa, sem cobertor, sem corda pra subir e sem mãos para puxar pra fora dessa prisão. Somente enxerga as mãos que apontam e as bocas que os condenam à “frescura”, ao “exagero”, a “falta de razão”, à “falta de Deus” e à “fraqueza da mente humana”. São cobranças terceiras que adoecem as vítimas crerem que devem se autocobrar para atendê-las. São cobranças de uma expectativa que querem ditar o ritmo e os caminhos de vidas dos outros..E quando se está no fim do poço... quando não se vê saída... quando se sente que está sendo peso morto, u. fracasso, uma escória... qual o sentido de viver?  Para que viver se a dor interna é dilacerante, se nunca vai ser feliz conforme as pessoas querem que sejam? Tiram dessas pessoas a capacidade de enxergar a própria essência, de sentir as próprias vontades, de querer ser o que quiser ser e de viver o que as fazem felizes. 

Muitos não têm como enxergar o contexto geral de fora e ver que precisa de ajuda profissional. Outros até percebem, mas não têm condição ou apoio para tal. Só lhes resta desistir... E ainda assim, após tudo será condenado ao inferno ou purgatório pelos “juízes terrenos dos pecados alheios”.  Tiram desses até o direito a um julgamento no juízo final diante o Único que tudo ver e pode julgar, perdoar ou condenar. Mais uma vez digo, só quem viveu sabe.

Simone Biles 
Fonte: Internet 

A decisão da Simone Biles não é sobre ser fraca, não é sobre nadar, nadar e morrer na praia. A decisão da Simone Biles é sobre cansar de carregar nas costas não o seu mundo real, mas o mundo fantasioso que os outros constroem e querem que você carregue. Afinal, não basta você bater o sino e acompanhar a procissão. Impõem que você tenha que ainda distribuir hóstia, passar a batina do padre, rezar o terço, fazer coreografia, receber confissão – mas, não pode confessar -, rezar a missa, carregar o andor, ser a imagem, dirigir o carro de som e ainda ter que cantar “segura na mão de Deus e vai”.

A decisão de Simone Biles é sobre mostrar pra todos nós que chega do peso do verbo TER. Não “temos que” nada para agradar ninguém. E tá tudo certo! 

É preciso dar uma basta. É preciso que cada um se pergunte como está agindo com quem tá do nosso lado. Como está agindo com o pai, a mãe, o irmãos, o marido, a esposa, os filhos, os colegas de trabalho, seus vizinhos, seu amigo. Como está falando com eles...  Será que estou cobrando algo que não é de minha conta?  Será que muitas decisões e ações do meu vizinho não tem a ver com o que ele aprendeu como certo? Será se meu colega já foi vítima de algum traumas ou alguma situação de violência que lhe causou danos interiores? O que me interessa se aquele casal de amigos casados há tanto tempo ainda não tem filhos? Será que falar do aumento ou diminuição do peso de alguém não fere a pessoa? Será que cobrar por uma vida de sucesso, dentro do  que eu julgo ser sucesso,  não é inconveniente? Porque o fato de fulano ser de alguma letra dentre os LGBTQIA+ me afeta tanto? Será que não estou querendo que as pessoas ao meu redor tenham a vida que eu queria ter - e não tive – para me agradar? Será que as pessoas não podem ter seus gostos e suas vontades? Será as pessoas não podem viver suas próprias vidas conforme elas queiram ou estejam dentro do seu possível? Será que se eu não sou o gatilho de ansiedade de alguém que digo gostar? E se tudo isso fosse comigo? 

Aos mais corajosos... eu diria pergunte a uma pessoa que você gosta se está sendo tóxico com ela em algum aspecto da vida. 

Se algum das respostas for positiva... é melhor parar!  Você pode tá adoecendo alguém.


5 comentários:

TucaPB disse...

Como sempre, show!

Josiett Santos disse...

Que texto maravilhoso, amei cada frase. Obrigada por compartilhar esse texto.

Anderson Alves disse...

Texto sensacional com tema muito interessante!

Maria Alice Moraes disse...

RivAs, teu texto é incrível, atual e tocante. Eu precisava de um texto desse, juro que a tua sensibilidade tocou meu coração, especialmente nesse momento em que vivo. Não está fácil! Obrigada pra sempre! Te amo muito!

Unknown disse...

Obrigada pela coragem de escrever sobre esse tema.

Sempre oportuno. Muitas pessoas estão morrendo sem expressar seus sentimentos.
Será que estamos sendo tóxicos na vida de alguém? Pergunta forte e que precisamos fazer!

Obrigada!