domingo, 21 de dezembro de 2025

DONA LUZIA: MULHER QUE ALIMENTOU FUTUROS

 

Já escrevi e publiquei no meu blog um texto sobre meu primeiro dia de aula. Lá contei como foi minha chegada à sala e confessei que o que eu mais adorava era o fato de a cantina ficar logo atrás da classe e de nós, do pré-escolar, termos prioridade no atendimento. Naquele primeiro dia, deparei-me com o carinhoso sorriso de uma mulher que sempre foi uma figura muito presente na minha vida e que, ainda hoje, no alto dos seus oitenta e tantos anos, segue sendo um exemplo de luta e resiliência para mim e para tanta gente que conhece sua história.

Chamada popularmente de Dona Luzia do Bebé, foi ela quem me serviu um copo de mingau de flocos de milho — e ainda deixou que eu repetisse. Naquele dia, ela alimentou meu corpo; mas, à medida que fui crescendo, passei a enxergar nela um exemplo de alimento moral, capaz de inspirar todos ao seu redor e as gerações seguintes como um verdadeiro modelo de ser humano.

Grupo ligado a igreja católica de Santa Teresa do Paruá
 (no detalhe Dona Luzia).

Não sei de onde ela veio para morar em Santa Teresa do Paruá. Contudo, sua história de vida é muito mais longa e profunda, repleta de ações, resultados e significados, especialmente a partir de sua fixação resistente naquela comunidade que, à época, era um verdadeiro caderno em branco para inúmeras e importantes histórias das quais ela foi protagonista.

Além de servir a merenda escolar às crianças, Dona Luzia era também uma das mulheres que preparavam e cozinhavam os alimentos. Atuava ao lado de outras mulheres igualmente incríveis. Na escola, era comum vê-la varrendo o pátio, limpando o terreiro da frente, organizando as salas e preparando o café dos professores. Sua presença era constante e, sobretudo, suas opiniões eram respeitadas, tanto nas reuniões internas quanto nos encontros de pais e mestres. Tinha sensibilidade para compreender as necessidades dos pais e dos filhos — afinal, era mãe de alunos — e conhecimento das possibilidades reais da escola. Mais do que funcionária, foi uma das mães — hoje avós e bisavós — que, mesmo sem condições materiais, ajudaram a erguer do zero um colégio comunitário, movidas pelo sonho de oferecer aos filhos um futuro diferente da realidade que viviam.

Sua importância, porém, não se encerra aí. Católica fervorosa, sempre demonstrou uma fé indiscutivelmente vigorosa. Foi presença constante nas atividades da comunidade católica. Não sei como é hoje, já que resido há trinta anos fora da cidade, mas enquanto lá vivi e a visitei, era fácil encontrá-la nas reuniões da Paróquia e da Diocese, nas rezas, novenas, missas e procissões. Atuava de forma dedicada na Pastoral da Criança, na Pastoral da Terra e nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Por diversas vezes, nossos dias em Santa Teresa amanheceram e anoiteceram ao som de sua voz — ao lado da querida Dona Jaulina — levando a palavra de Deus e importantes informes por meio do autofalante da cidade, conhecido como “Voz da Comunidade Católica de Santa Teresa do Paruá”. Também foi relevante sua atuação na construção do Centro Comunitário e, posteriormente, da própria igreja católica.

Pessoas no Centro Comunitário onde aconteciam 
o curso supletivo de Magistério.

Ao mencionar sua participação no Colégio Santa Teresa e sua ligação com a igreja, é impossível não falar de sua dedicação ao Supletivo oferecido pelos Irmãos La Salle durante as férias das escolas regulares. Esse supletivo de Magistério foi uma alternativa criada para auxiliar alunos que concluíam a então 8ª Série do 1º Grau e não tinham condições de seguir os estudos fora da cidade. Tudo acontecia no Centro Comunitário, onde os participantes ficavam alojados, assistiam às aulas e realizavam todas as refeições. E ali, mais uma vez, Dona Luzia teve atuação singular, colaborando na limpeza, na cozinha e em tudo o que fosse necessário.

Se tivesse atuado com excelência em apenas um desses campos, já seria motivo de grande mérito. Mas Dona Luzia nunca foi de se esquivar ou esconder as mãos diante de quem precisava, sobretudo quando a necessidade era coletiva. A coletividade sempre foi seu maior compromisso. Antes mesmo de tudo isso, outra instituição teve papel fundamental no cotidiano da cidade e contou com seu dinamismo incansável: a Associação de Moradores. Dona Luzia foi agente militante dessa associação e chegou a ser Presidenta do Clube de Mães, cujas atividades transformaram a rotina e a vida de muitas mulheres e famílias. Eram cursos de bordado, culinária e corte e costura. Minha irmã Rogenita, que costura há mais de trinta anos, aprendeu esse ofício no curso oferecido pelo Clube de Mães de Santa Teresa do Paruá.

Dona Luzia com as Professoras Angelita Olívio, Eliane Rego e Sandra Olivia ao lado de uma aluno do Colégio Santa Teresa.

Essa mesma instituição construiu um prédio destinado a uma maternidade — sonho que, infelizmente, nunca foi concretizado por falta de iniciativa dos gestores públicos. Hoje, não sei em que situação se encontra essa construção. O fato é que o que já foi o maior exemplo de educação da região, o Colégio Santa Teresa, já não existe, e o terreno deixou de ser propriedade da comunidade. Enquanto isso, “motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes”, e a essência de nossa história vai ficando para trás. Como disse Bob Marley: “Um povo sem conhecimento — e sem respeito — de seu passado histórico, origem e cultura é como uma árvore sem raízes”.

Sem medo de errar, posso afirmar que não há, em Santa Teresa do Paruá, uma família que não tenha recebido alguma contribuição direta ou indireta do trabalho de Dona Luzia do Bebé. Antes mesmo de termos como sororidade, inclusão social e tolerância religiosa entrarem no vocabulário brasileiro, Dona Luzia já exercia e incentivava essas práticas. Mulher sincera, corajosa e de opiniões firmes, possuía elevado senso de justiça e buscava contribuir para o desenvolvimento das pessoas que mais precisavam. Seu trabalho sempre esteve voltado à educação, à emancipação feminina, à elevação da fé — independentemente da religião —, ao bem comum, à justiça e ao interesse coletivo.

Dona Luzia (de verde) ao lado do esposo Sr. Raimundo
 (conhecido como Seu Bebé) ladeadoa pelos filhos e filhas.

Quis encerrar o ano falando sobre a força da luta, da resistência e da resiliência das mulheres que sempre pensaram no coletivo antes de pensar em si mesmas. Por isso, decidi falar de Dona Luzia, que segue firme e admiravelmente atuante. Falar sobre ela é aplaudir a independência feminina e reconhecer que a mulher não pode, nem merece, ter sua vida direcionada ou determinada por quem não seja ela mesma, ou sem seu consentimento. Reconhecer o trabalho de Dona Luzia é respeitar uma história de luta que possibilitou a nós — filhos, netos e bisnetos de Santa Teresa do Paruá — o acesso à educação de qualidade e, muitas vezes, a possibilidade de escolha sobre nosso presente e futuro. Se hoje, as gerações criadas a partir dos anos 1970 têm opções de vida para além da roça — que durante muito tempo foi, para a maioria, a única forma de sobrevivência, marcada pelo analfabetismo —, isso se deve, em grande parte, ao trabalho de mulheres e mães como Dona Luzia do Bebé.

Por tudo isso — pela amizade, pelo carinho e por eu ser testemunha de sua genuína vontade de conquistar melhorias para a coletividade —, tenho mais do que respeito por sua idade: reconheço sua história de vida e agradeço por suas lutas, que hoje se refletem em nossas conquistas.

5 comentários:

Anônimo disse...

Muito justo seu comentário sobre essa mulher que facilmente podemos chamá-la de guerreira.
dona Luzia, me lembro muito bem de seus cuidados com os filhos dos filhos de Santa Teresa do Paruá.

Anônimo disse...

Gratidão, meu amigo!

Anônimo disse...

Você é demais! Falou muito bem de Dona Luzia minha mãe. Dona Luzia é tudo isso mesmo... Obrigada.

Anônimo disse...

Essa mulher incrível é minha avó. Que história de vida que inspira outras pessoas

Anônimo disse...

Minha tia Luzia, morei quase 10 anos na casa dela. Ela nasceu no município de Brejo Maranhão, a filha mais velha do seu Antônio Gomes que dá primeira esposa que faleceu foram 6 filhos,4 mulheres e 2 homens. E dá segunda esposa são 12 filhos. Não estão os 18 filhos vivos ,por causa do covid 19,minha tia Ana Maria morreu em 18 de fevereiro de 2021. O meu bisavô chamado Bernardo Araújo foi embora para o Mearim na década de 50. Inclusive meu avô também iria, mas devido a minha avó estar grávida. Teve esperar a criança nascer. Só que minha avó faleceu, primeiro a criança morreu ainda na barriga e as complicações levou a minha avó a óbito no ano de 1954, minha mãe tinha 7 ou 8 anos na época. Depois desse fato meu avô casou novamente com uma adolescente, por sinal mais nova uns 2 ou 3 anos do que tia Luzia. Foi então que tia Luzia cansou- com Tio Bebé ,que por vez são primos e foram embora para o Mearim. O local exato eu não. Acho que o último lugar antes deles irem para Santa Teresa, foi o Newton Belo, antes Chapéu de Couro. SÓ SEI QUE NO MARANHÃO PARÁ, GOIÁS, PIAUÍ BAHIA RORAIMA SANTA CATARINA, Paraná, SÃO PAULO ENFIM no Brasil inteiro até em Portugal, Estados Unidos tem gente da família Gomes Araújo, alguns só assinam Gomes que nem eu. Também meu bisavô se não estou enganada teve duas esposas, como a primeira faleceu e teve 6 com a primeira e 12 com a segunda ao todos 18 filhos . Não sei se ainda tem algum vivo. Acho que só os netos, bisnetos e nem sei quantas gerações a frente.